1905
O CONTROLE POLICIAL SOBRE AS MANIFESTAÇÕES CARNAVALESCAS DO POVO NEGRO EM SALVADOR, BAHIA
AVISO DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA DA BAHIA, DE 24 DE FEVEREIRO DE 1905
MATÉRIA DO JORNAL CORREIO DO BRAZIL, DE 25 DE FEVEREIRO DE 1905
No início do século 19, o Carnaval de Salvador já era um espaço de disputa. De um lado, setores das elites defendiam uma festa inspirada nos modelos europeus, com grandes clubes carnavalescos organizados. De outro, cresciam pelas ruas manifestações negras marcadas por batuques, danças, músicas, instrumentos de percussão e referências às culturas africanas.
A presença desses grupos passou a incomodar parte da imprensa e das autoridades, que associavam essas manifestações a uma ideia de “atraso” e “desordem”. Como resposta, em 24 de fevereiro de 1905, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia publicou um aviso com regras para controlar as apresentações durante o Carnaval.
O documento proibia a “exibição de clubes de costumes africanos com batuques”, além de impedir críticas consideradas ofensivas a pessoas ou instituições e limitar o uso de máscaras após as 18 horas. Também determinava que: “nenhum clube poderá apresentar-se nas ruas da capital sem aprovação das respectivas críticas pela polícia” (O Carnaval…, 1905, p. 2).
Na prática, o aviso colocava sob vigilância policial as manifestações carnavalescas negras. Os grupos que apresentavam elementos ligados às culturas africanas passaram a ser vistos como um problema de segurança pública. Em 1905, a polícia chegou a apreender o estandarte e os instrumentos de um “clube africanizado”, demonstrando a tentativa de impedir a presença dessas expressões nas ruas da cidade.
Entre 1905 e 1914, os clubes negros tiveram sua atuação reduzida ou proibida. A medida fazia parte de um período em que autoridades e setores das elites buscavam controlar os espaços ocupados pela população negra após o fim da escravidão, definindo quais formas de expressão seriam consideradas aceitáveis.
FONTES:
MEMÓRIAS DO REINADO DE MOMO. Afro-Carnaval. Salvador, [s.d.].
MEMÓRIAS DO REINADO DE MOMO. Repressão, resistência e negociação. Salvador, [s.d.].
O CARNAVAL. Correio de Brazil, Salvador, n. 442, p. 2, 25 fev. 1905.
Resistências Radicais
01
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DOS CLUBES AFRICANIZADOS AOS BLOCOS AFRO: RESISTÊNCIA NEGRA NO CARNAVAL DE SALVADOR
ASSOCIADOS DO AFOXÉS FILHOS DE GANDHY, CARNAVAL 2026
No final do século 19 e início do século 20, o Carnaval de Salvador tornou-se um importante espaço de expressão das comunidades negras da cidade. Embora existissem várias tentativas de controle e repressão, grupos negros ocuparam as ruas, preservaram tradições e criaram novas formas de participação na vida pública.
Entre as décadas de 1890 e 1900, clubes como a Embaixada Africana, os Pândegos da África, os Filhos da África e outros grupos levaram para o Carnaval referências aos povos africanos, por meio de músicas, danças, roupas, símbolos e histórias sobre a África.
Em 1905, quando a polícia proibiu os chamados “clubes de costumes africanos com batuques”, tentou-se limitar a presença dessas manifestações nas ruas de Salvador. No entanto, a repressão não conseguiu acabar com essas práticas. Elas continuaram presentes em festas populares, terreiros, comunidades e outras formas de encontro da população negra.
A partir de 1915, com a diminuição das proibições, as manifestações negras voltaram a ganhar maior visibilidade no Carnaval. Os batuques, afoxés e clubes negros mantiveram elementos que atravessaram gerações, como a música, a dança, a valorização da ancestralidade africana e a ocupação dos espaços públicos.
Essa trajetória chegou ao século 20 com o surgimento dos blocos afro, que transformaram o Carnaval em um espaço de afirmação da identidade negra e de valorização da história africana. O Ilê Aiyê, criado em 1974, foi um marco desse movimento ao colocar a cultura negra no centro da festa carnavalesca. Depois dele, outros grupos, como o Olodum, Afoxé Filhos de Gandhy e o Malê Debalê, fortaleceram essa presença.
A história dos blocos afro mostra que as manifestações negras do Carnaval de Salvador possuem uma longa trajetória de resistência. Práticas que foram perseguidas e consideradas inadequadas pelas autoridades tornaram-se símbolos da cultura baiana e importantes formas de afirmação da população negra.
FONTES:
MEMÓRIAS DO REINADO DE MOMO. Afro-Carnaval. Salvador, [s.d.].
MEMÓRIAS DO REINADO DE MOMO. Repressão, resistência e negociação. Salvador, [s.d.].
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VIEIRA FILHO, Rafael Rodrigues. A africanização do carnaval de Salvador, Bahia: a re-criação do espaço carnavalesco (1876-1930). Salvador: UFBA, 1995.
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