1923
DECRETO Nº 16.272
Lógica Disciplinadora e Produtivista
Meninos sobre máquina de cortar ferro e aço, Cruzeiro do Sul, Acre. Arquivo Nacional, Fundo Afonso Pena
O Decreto nº 16.272, de 20 de dezembro de 1923, instituiu no Brasil o primeiro regulamento nacional voltado à assistência e controle estatal sobre menores definidos como abandonados ou delinquentes. A norma criou o Conselho de Assistência e Proteção aos Menores, encarregado de vigiar crianças sob tutela judicial e fiscalizar escolas de preservação e reforma, bem como fábricas, oficinas e demais estabelecimentos que empregavam menores. Além disso, regulamentou medidas como suspensão ou perda do poder familiar e organizou a criação de instituições específicas para acolhimento, educação e correção, separadas por gênero e voltadas à formação profissional em ocupações de baixa qualificação.
Embora o decreto não contenha referências explícitas à raça, a sua aplicação deve ser analisada dentro do contexto social brasileiro da década de 1920, período profundamente marcado pelas desigualdades estruturais herdadas da escravidão. A pobreza extrema afetava de forma desproporcional famílias negras e, por consequência, crianças negras apareciam com maior frequência entre aquelas classificadas como "abandonadas" ou "delinquentes" pelo Estado. Nesse sentido, o decreto atuava dentro de um sistema que naturalizava a associação entre pobreza, vulnerabilidade e suposta necessidade de tutela estatal, reforçando desigualdades raciais já enraizadas na sociedade.
As oficinas e escolas previstas pelo regulamento buscavam moldar o comportamento desses menores segundo uma lógica disciplinadora e produtivista. Ao direcionar meninos e meninas pobres para atividades de baixa valorização social, como serviços domésticos, lavanderia e jardinagem, a legislação colaborava para a reprodução de um padrão de ocupações historicamente atribuídas à população negra desde o período escravista. A institucionalização desses menores funcionava, portanto, como um mecanismo de controle social que, na prática, limitava possibilidades de mobilidade e reforçava estigmas associados à raça e à classe.
Caso Jurídico
01
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DECRETO 16.272/1923
Assistência e Proteção aos Menores
O Decreto nº 16.272, de 20 de dezembro de 1923, representou um marco na institucionalização do controle estatal sobre a infância no Brasil. Aprovado durante o governo de Artur Bernardes, o decreto estabeleceu o primeiro regulamento nacional voltado à assistência e proteção de menores considerados "abandonados" ou "delinquentes".
A legislação criou o Conselho de Assistência e Proteção aos Menores, órgão encarregado de vigiar crianças sob tutela judicial, fiscalizar escolas de preservação e reforma, e supervisionar fábricas, oficinas e estabelecimentos que empregavam menores. O decreto também regulamentou medidas como a suspensão ou perda do poder familiar e organizou a criação de instituições específicas para acolhimento, educação e correção.
As instituições previstas eram segregadas por gênero e voltadas à formação profissional em ocupações de baixa qualificação — como serviços domésticos, lavanderia, jardinagem e trabalhos manuais. Essa orientação revelava uma concepção de controle social que buscava moldar o comportamento dos menores segundo uma lógica disciplinadora e produtivista.
Embora o decreto não fizesse referências explícitas à raça, sua aplicação deve ser compreendida dentro do contexto das desigualdades estruturais herdadas da escravidão. A pobreza afetava desproporcionalmente famílias negras, fazendo com que crianças negras fossem predominantes entre aquelas classificadas como "abandonadas" ou "delinquentes" pelo Estado.
Assim, o decreto funcionava como um mecanismo de controle social que naturalizava a associação entre pobreza, vulnerabilidade e suposta necessidade de tutela estatal. Ao direcionar meninos e meninas pobres — em sua maioria negros — para atividades historicamente atribuídas à população negra desde o período escravista, a legislação contribuía para a reprodução de desigualdades raciais e de classe, limitando possibilidades de mobilidade social e reforçando estigmas profundamente enraizados na sociedade brasileira.
DECRETO Nº 16.272, ART. 1º
"Fica creado o Conselho de Assistencia e Protecção aos Menores, destinado a velar pela applicação das leis de assistencia e protecção aos menores abandonados e delinquentes, internados em escolas de preservação ou de reforma ou confiados a particulares."
O modelo de institucionalização previsto pelo decreto influenciou profundamente as políticas públicas voltadas à infância nas décadas seguintes, consolidando uma abordagem que priorizava a internação e o controle em detrimento da preservação dos vínculos familiares e comunitários.
Essa lógica assistencialista e disciplinadora permaneceu como marca das políticas de atenção à infância no Brasil até a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, que rompeu com o paradigma da "situação irregular" estabelecido por essa legislação e pelas normas que a sucederam, especialmente o Código de Menores de 1927.
FONTE:
BRASIL. Decreto nº 16.272, de 20 de dezembro de 1923. Approva o regulamento da assistencia e protecção aos menores abandonados e delinquentes. Diário Official da União, Rio de Janeiro, 1923.
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RIZZINI, Irene. Crianças e menores do pátrio poder ao pátrio dever: um histórico da legislação para a infância no Brasil (1830-1990). In: PILOTTI, Francisco; RIZZINI, Irene (org.). A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância. Rio de Janeiro: Instituto Interamericano Del Nino; Editora Santa Úrsula; Anais Livraria e Editor, p. 99-168, 1995.
RIZZINI, Irma. Meninos desvalidos e menores transviados: a trajetória da assistência pública até a Era Vargas. In: RIZZINI, Irma; PILOTTI, Francisco (org.). A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. p. 225-286.
RIZZINI, Irene; RIZZINI, Irma. A institucionalização de crianças no Brasil: percurso histórico e desafios do presente. Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2004.
ARQUIVO NACIONAL. Legislação sobre menores na Primeira República. In: Dicionário da Administração Pública Brasileira — Primeira República (1889-1930).
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