1845
O APAGAMENTO DAS PRÁTICAS CULTURAIS NEGRAS NO RECÔNCAVO BAIANO
POSTURA MUNICIPAL DE 31 DE MARÇO DE 1845
MAPA DO RECÔNCAVO BAIANO – ISA GALVÃ0/BRASIL ESCOLA
A postura municipal de Nazaré das Farinhas, localizada no Recôncavo Baiano, aprovada em 31 de março de 1845, proibia a realização de “batuques e danças” por pessoas escravizadas sem autorização prévia, independentemente do local ou horário. A norma previa multa e pena de prisão de até oito dias, além de 10 mil réis. Essas medidas faziam parte de regras municipais voltadas à organização da vida urbana e ao controle dos costumes e das práticas culturais da população negra.
Essa forma de fiscalização não era um caso isolado. Em diferentes cidades da Bahia, especialmente no Recôncavo, as câmaras municipais aprovaram normas semelhantes em vários períodos. Em São Félix do Paraguaçu, por exemplo, a Postura Municipal nº 5, de 6 de setembro de 1893, proibia “sambar, batucar ou fazer-se algazarras” (Intendência…, 1894, p. 23) que perturbasse o sossego da população, prevendo multa e prisão para os infratores. Essas medidas mostram que o controle e a repressão das manifestações culturais da população negra faziam parte de uma prática adotada em diferentes lugares da Bahia.
FONTES:
INTENDÊNCIA MUNICIPAL DE CACHOEIRA. Código das Posturas do Municipio de São Felix do Paraguassú, Lei nº 5 de 6 de setembro de 1893. São Felix do Paraguassú, 1894. Fundo Câmara Municipal de Cachoeira, caixa 1. Arquivo Público Municipal de Cachoeira, Cachoeira.
TRINDADE, Pedro Moraes. Do lado de cá da Kalunga: os africanos angolas em Salvador (1800–1864). 2008. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008.
WILMSEN, Kauan da Silva. Códigos de posturas municipais e suas influências no processo de civilização da população urbana (Bahia, 1845–1855). Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) – Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus V, Santo Antônio de Jesus, 2024.
Resistências Radicais
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O SAMBA DEPOIS DO TRABALHO
DANÇA DO BATUQUE – RUGENDAS
No início do século 20, muitas pessoas negras trabalhavam nas fábricas, nos armazéns, no porto e em outros serviços nas cidades de Cachoeira e São Félix. Entre elas estavam sambadores e sambadoras, pais e mães de santo e integrantes dos terreiros de candomblé. O historiador Edmar Ferreira Santos (2009) informa que essas pessoas enfrentavam rotinas de trabalho marcadas pelo esforço físico, atuando em atividades ligadas ao fumo, às fábricas de sabão e cerveja, ao comércio de alimentos e ao transporte de mercadorias.
Segundo o autor, depois de longas jornadas de trabalho “muitos [trabalhadores negros] encontravam forças, alegria e fé, para afastar a fadiga e se juntar em 'intermináveis' rodas de samba ou cuidar dos preparativos para as festas dos voduns e orixás nos arredores das cidades” (Santos, 2009, p. 38).
Esses encontros eram mais do que momentos de diversão. As rodas de samba e as festas dos terreiros eram espaços de convivência, amizade e fortalecimento da comunidade, onde músicas, danças e costumes de origem africana continuavam presentes.
Naquele período, muitas autoridades e pessoas das elites viam essas manifestações como contrárias à ideia de uma cidade “civilizada” e tentavam controlar ou impedir sua realização. Apesar disso, as práticas culturais seguiram fazendo parte da vida das comunidades negras. Ao continuar cantando, dançando e celebrando suas tradições, homens e mulheres negros resistiram às tentativas de apagamento da sua cultura, garantindo sua continuidade até os dias atuais.
FONTE:
SANTOS, Edmar Ferreira. O poder dos candomblés: perseguição e resistência no Recôncavo da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2009.
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NEPOMUCENO, Eric Brasil. Carnavais atlânticos: cidadania e cultura negra no pós-abolição. Rio de Janeiro e Port-of-Spain, Trinidad (1838-1920). 2016. Tese (Doutorado em História em Social) – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2016.
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