1938

POLÍTICA RACISTA DE IMIGRAÇÃO NO BRASIL

(OU COMO EMBRANQUECER UMA NAÇÃO?) - Decreto nº 3.010, de 20 de agosto de 1938

Fotografia em preto e branco mostra uma criança pequena, de cabelos curtos e franja, sentada de pernas cruzadas, usando apenas uma fralda. À direita, aparece um cartaz escrito em letra cursiva: '1º Concurso de Eugenia realizado pela Inspetoria de Educação Sanitária e Centros de Saúde a 24 de fevereiro de 1929 em S. Paulo por delegação da Sociedade de Medicina de S. Paulo.' Abaixo da imagem, uma legenda informa: 'Figura 3: Criança premiada como o Bebê Eugênico; ilustração do trabalho A influência da educação sanitária na redução da mortalidade infantil, apresentado no congresso por Maria Antonieta de Castro. (Fotografia de Adenir F. Carvalho; acervo Arquivo de Antropologia Física, Museu Nacional/UFRJ).'

Tipo Ideal - Concurso de Eugenia 1929

O Decreto nº 3.010, de 20 de agosto de 1938 reforça e demonstra a intenção do projeto republicano de intervir diretamente na composição racial e étnica da população brasileira, visando controlar quem poderia ou não entrar no país. Não se tratava apenas de permitir a entrada de imigrantes para a mão de obra, mas sim de controlar quem faria parte da população, com base em critérios raciais.

Embora não esteja na letra da lei, pesquisadores e instituições como o Museu da Imigração documentam que o Decreto-Lei nº 3.010 exigia a apresentação pessoal do solicitante ao cônsul, que relatava características como cor e deficiência física. Isso fazia parte de uma política imigratória eugenista.

Segundo o artigo 1º, o referido regulamento "dispõe sobre a entrada e a permanência de estrangeiros no território nacional, sua distribuição e assimilação e o fomento do trabalho agrícola", observando que sua aplicação deveria considerar a preservação da "constituição étnica do Brasil", suas formas políticas e seus interesses econômicos e culturais.

A política de assimilação sociocultural dos imigrantes devia ser alcançada por meio da educação cívica, da obrigatoriedade da língua portuguesa e da colaboração com a formação do povo brasileiro através da mestiçagem. Ou seja, as políticas migratórias tinham como objetivo declarado manter uma determinada composição racial e cultural alinhada com os interesses econômicos e políticos do governo e da elite branca dirigente, fundamentadas em uma lógica racista, xenófoba, eugênica e cristã, direcionada ao branqueamento da população brasileira.


FONTES:
NASSIF, Luis. O projeto de branqueamento do Estado Novo. Jornal GGN, São Paulo, 18 nov. 2012.
RIBEIRO, Cilene da Silva Gomes et al. Pessoas com deficiência: eugenia na imigração do início do século XX. Revista Bioética do Conselho Federal de Medicina, v. 27, n. 2, p. 212-222, 2019.

Resistências Radicais

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ABDIAS NASCIMENTO E A IMPORTÂNCIA DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO NO COMBATE AO RACISMO

Fotografia em preto e branco retrata cinco homens negros, de tronco nu, posicionados em ambiente interno com iluminação central. O homem em primeiro plano está à frente dos demais, com olhar firme e expressão séria, evidenciando sua força e postura determinada. Ele veste calça com cinto e está centralizado dentro de um enquadramento retangular traçado à caneta azul diretamente sobre a imagem. Ao fundo, os outros quatro homens observam com semblantes concentrados. A imagem sugere um registro oficial ou científico, possivelmente ligado a estudos de eugenia ou antropometria do século XX.

Aguinaldo Camargo, em primeiro plano, em cena. Teatro Experimental do Negro

O Decreto nº 3.010, de 1938, evidencia a política eugênica e racista do Estado Novo ao regular a entrada e permanência de estrangeiros sob a justificativa da "preservação da constituição étnica do Brasil". Essa medida buscava controlar a composição racial do país, promovendo o branqueamento da população e a assimilação forçada por meio da língua portuguesa e da mestiçagem dirigida.

Contra essa lógica excludente, destacou-se a trajetória de Abdias Nascimento. Alistando-se no Exército, saiu de Franca/SP em 1929 para a capital paulista, onde participou da Frente Negra Brasileira e, em 1938, organizou o Congresso Afro-Campineiro, que protestou contra a discriminação racial e debateu as relações raciais na cidade de Campinas/SP. Por resistir ao racismo e participar de movimentos de oposição ao Estado Novo, foi preso pelo Tribunal de Segurança Nacional e cumpriu dois anos na Penitenciária do Carandiru. Ali fundou, em 1943, o Teatro do Sentenciado, formado por presos que criavam, ensaiavam e apresentavam seus próprios espetáculos, além de colaborar na criação do jornal dos detentos.

Em 1944, Abdias fundou no Rio de Janeiro o Teatro Experimental do Negro (TEN), primeira entidade afro-brasileira a ligar a luta pelos direitos civis à valorização da herança cultural africana. O TEN rompeu a barreira racial no teatro brasileiro, oferecendo cursos de alfabetização e cultura geral a trabalhadores negros, e formando a primeira geração de atores e atrizes negras do país. Sob sua liderança, organizou ainda a Convenção Nacional do Negro (1945-46), que propôs para a Constituinte de 1946 a criminalização da discriminação racial, além da Conferência Nacional do Negro (1949) e do 1º Congresso do Negro Brasileiro (1950).

Abdias também foi um dos principais organizadores do Comitê Democrático Afro-Brasileiro, que lutou pela libertação de presos políticos do Estado Novo, e editou o jornal Quilombo: Vida, Problemas e Aspirações do Negro. À frente do TEN, promoveu exposições artísticas e concursos como o de Artes Plásticas sobre o tema do Cristo Negro, realizado durante o 36º Congresso Eucarístico Mundial no Rio de Janeiro.

Mantendo contato com movimentos de libertação africanos e com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, Abdias aproximou o TEN da filosofia da Negritude, liderada por Léopold Senghor, Aimé Césaire e Léon Damas. Excluído da delegação brasileira ao 1º Festival Mundial das Artes Negras (FESMAN), em Dacar, publicou a Carta Aberta a Dacar na revista Présence Africaine, denunciando o racismo no Brasil diante de um público internacional. Esse gesto marcou o primeiro protesto de um intelectual afro-brasileiro a ser ouvido por uma audiência africana global.

FONTES:
AÇÕES. Seção TEN – Teatro Experimental do Negro. IPEAFRO, Rio de Janeiro, [20--].
BRASIL. Arquivo Nacional. Conheça Abdias Nascimento, um dos pioneiros do movimento antirracista brasileiro. Memórias Reveladas, 24 maio 2023.
PERSONALIDADES. Abdias Nascimento. IPEAFRO, Rio de Janeiro, [20--].

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