1940

REGULAR OS ESPORTES, DOMESTICAR A CAPOEIRA

Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940

Capa de um exemplar impresso do Código Penal dos Estados Unidos do Brazil, de 1890. O fundo é vermelho, bastante desgastado, com manchas, arranhões e bordas danificadas pelo tempo. No topo da capa está o brasão da República do Brasil em dourado. Abaixo, o título aparece em letras douradas e serifadas. Ornamentações douradas decoram os cantos superior direito e inferior esquerdo. O documento representa a institucionalização da justiça criminal no início da República, com foco em consolidar uma ordem legal moderna, influenciada pelo positivismo e pela ideia de controle social por meio da punição.

CAPA DO CÓDIGO PENAL DE 1940

A promulgação do Código Penal de 1940, Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, revogou o artigo 402 do Código Penal de 1890 – que criminalizava a "capoeiragem" – tornando a capoeira uma prática permitida por lei. Contudo, como aponta Pedro Abib (2004), essa legalização, assim como a de outras manifestações da cultura negra durante o governo Vargas, não representou reconhecimento ou valorização dessas práticas, mas sim um mecanismo de regulação.

Nesse contexto, o Decreto nº 3.199, de 14 de abril de 1941, estabeleceu as bases para a organização dos desportos no país, criando a Confederação Brasileira de Pugilismo, que incluiu desde sua fundação o Departamento Nacional de Luta Brasileira (Capoeiragem). A partir desse decreto, a capoeira só poderia existir em "locais apropriados", mediante alvará e regras impostas pelo Estado. Assim, a legalização funcionava como estratégia de controle social, restringindo sua presença nas ruas e enquadrando a prática em moldes esportivos e disciplinados.

Esse processo também afetou outras manifestações de matriz africana, como o Candomblé, que igualmente ficaram condicionadas a espaços fechados e autorização estatal. Esse quadro também é importante para a problematização da legalização da capoeira enquanto "ginástica nacional", que, lapidada e absorvida pelas academias, passa a ser "higienizada" (embranquecida) e enunciada pela elite brasileira como prática de alto valor para a expressão da "cultura nacional mestiça", num esforço de consolidar a assimilação e embranquecimento das vivências e culturas afro-brasileiras, descolando-a de suas origens negras e de suas memórias de luta e resistência.

Nesse mesmo movimento de regulação, mulheres também foram alvo de controle: o artigo 54 do decreto proibiu que praticassem esportes considerados "incompatíveis com a sua natureza", contribuindo posteriormente para a proibição do futebol feminino no Brasil.

TEXTO REESCRITO E ADAPTADO PELO EDITOR-REVISOR


FONTE:
ABIB, Pedro Rodolpho Jungers. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo de saberes na roda. Salvador: EDUFBA, 2004.
ARAÚJO, Mestre Bert Breuel. Cronologia da Capoeira. CapoeiraNews, 13 dez. 2018.

Resistências Radicais

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ACADEMIA DE MESTRE BIMBA

A fotografia em preto e branco de um jornal de 1936 exibe uma manchete sobre o Mestre Bimba, campeão de capoeira, desafiando lutadores baianos. A composição da página do jornal apresenta o título proeminente 'A TARDE' no topo, seguido pela data 'Segunda-feira, 16 de Março de 1936'. A manchete principal, 'Mestre Bimba, campeão na capoeira, desafia todos os lutadores baianos', domina o centro, com o texto explicativo e uma fotografia em preto e branco do Mestre Bimba abaixo. A disposição é tradicional, com o texto alinhado à esquerda e a fotografia incorporada para ilustrar a matéria. A imagem apresenta um retrato em close do Mestre Bimba, um homem negro de meia-idade, com um olhar determinado e um semblante sério. Ele veste um terno e gravata, com o cabelo curto e penteado para trás, transmitindo uma imagem de profissionalismo e confiança. Sua expressão facial demonstra foco e determinação, refletindo o desafio que ele lança na manchete.

MATÉRIA SOBRE O MESTRE BIMBA NO JORNAL A TARDE (BA), 16 DE MARÇO DE 1936

A Academia de Mestre Bimba, fundada por Manuel dos Reis Machado, conhecido como "Mestre Bimba", foi um marco na história da capoeira. Estabelecida no bairro do Engenho Velho de Brotas, em Salvador, desde 1932.

Em 1937, a academia conseguiu registro junto à Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública da Bahia, passando a se chamar Centro de Cultura Física e Capoeira Regional. Esse registro oficial foi simbólico para a legitimação da capoeira, ainda fortemente estigmatizada por sua ligação com a marginalidade.

A capoeira regional de Mestre Bimba procurava se opor à imagem do capoeirista valente e desordeiro, associado ao uso de navalha e à violência. Ao reformular a prática e aproximá-la das classes médias e dos estudantes universitários, Bimba buscava não apenas popularizá-la, mas também enfrentar a forte estigmatização social e repressão do poder público que historicamente marcavam a capoeira.

Sua iniciativa, portanto, funcionava como uma ação estratégica de resistência: ao reorganizar a prática, incorporar influências de outras artes marciais e estruturar um método próprio, Mestre Bimba criou uniformes, disciplina, rituais de batizado e formatura, além de um sistema de graduação que conferiu nova legitimidade à capoeira.

Com isso, a Academia de Mestre Bimba teve papel decisivo na transformação da capoeira, de prática marginal para modalidade respeitada por diferentes classes sociais, sendo um dos pilares para a legitimação da capoeira regional no Brasil moderno.

FONTES:
MEMORIAL DA DEMOCRACIA. Academia de Mestre Bimba é reconhecida. Memorial da Democracia, 2017.

OLIVEIRA, Josivaldo Pires de; LEAL, Luiz Augusto Pinheiro. Capoeira, identidade e gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009.

PIRES, Antônio Liberac Cardoso Simões. Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá: três personagens da capoeira baiana. Tocantins, Goiânia, UNITINS/NEAB, Grafset, 2002.

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