1942

CRIMINALIZAR RELIGIÕES AFRO E PERSEGUIR SEUS ADEPTOS

A diferença entre teoria e prática

Fotografia em preto e branco mostra uma mulher negra sorridente, sentada ao lado de um tabuleiro com comidas típicas. Ela veste uma tradicional roupa de baiana: saia rodada com estampa floral, blusa rendada, pano da costa, colares e pulseiras, além de um turbante branco na cabeça. A mulher representa a figura histórica da vendedora ambulante de comidas afro-baianas, símbolo da resistência cultural e religiosa do povo negro no Brasil.

Cartão Postal: Baiana do Tabuleiro - Edição americana, não circulado

Em 8 de abril de 1939, o Presidente Vargas sancionou o Decreto-lei nº 1.202, "proibindo aos Estados e Municípios o embaraço de cultos religiosos" (Brasil, 1939). Entretanto, em 1942, a situação sofreu um revés com a entrada em vigor da reforma do Código Penal de 1940, que incorporou medidas de repressão às práticas religiosas afro-brasileiras.

Com a crescente influência do espiritismo entre as classes médias e elites do país, essa doutrina foi retirada do texto legal que punia práticas populares. Ainda assim, o dispositivo referente a charlatanismo continuou a coibir as práticas populares, em especial as de matriz africana, mesmo sem nomeá-las explicitamente.

A ausência de um marco constitucional específico para a regularização de terreiros e centros espíritas deixava essa responsabilidade nas mãos da Justiça Estadual. Esse vazio jurídico abriu caminho para que, em 1942, no contexto autoritário do Estado Novo, surgissem as delegacias de costumes, instâncias de policiamento voltadas ao controle do funcionamento dos templos e, de modo mais abrangente, à vigilância de práticas sociais diversas, do campo religioso ao entretenimento, classificadas pelo Estado como inadequadas à ordem moral vigente.

A autorização policial tornou-se, então, condição obrigatória para o exercício das religiões afro-brasileiras. Quando negada, resultava em prisões, interdições de terreiros e apreensão de objetos rituais, dinâmica que se prolongou em algumas regiões até meados da década de 1970.

As consequências dessa política repressiva alcançaram também o destino das peças sagradas confiscadas ao longo desses anos. Diversos objetos recolhidos pela polícia foram incorporados ao acervo de museus e instituições de pesquisa. Um exemplo emblemático ocorreu em 2019, quando, após décadas sob guarda da Polícia Civil do Rio de Janeiro, uma coleção com centenas de itens foi transferida ao Museu da República. Essa mudança só se concretizou devido à atuação do coletivo afro-religioso Nosso Sagrado, que passou a coordenar, junto ao museu, a gestão compartilhada desse patrimônio espiritual e histórico.

TEXTO REESCRITO E ADAPTADO PELO EDITOR-REVISOR


FONTES:
CHRIST, Gui. Religiões afro-brasileiras enfrentam longa história de racismo – mas resistem. National Geographic Brasil, 21 jan. 2023.
SANTOS, Marcos Paulo Amorim dos. Polícia nas Encruzilhadas: macumbas, macumbeiros e ordem social (1930-1950). 2017. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2017.

Resistências Radicais

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ILÊ AIYÊ E OS TERREIROS COMO ESPAÇO DE ACOLHIMENTO

Logotipo colorido do bloco afro Ilê Aiyê, em formato de escudo oval com bordas amarelas. No centro, há uma figura estilizada em preto, amarelo, vermelho e branco que lembra uma máscara africana. Na parte superior, dentro de um fundo preto, aparece um desenho branco com contornos pretos e detalhes vermelhos que lembram búzios dispostos em forma de flor. Abaixo, em letras grandes e vermelhas, está escrito ILÊ AIYÊ. No centro inferior, há um triângulo branco apontando para cima e uma forma oval com traços pretos e vermelhos. Faixas diagonais amarelas e pretas completam a composição. Na base do escudo, em letras pretas, lê-se PERFIL AZEVICHE.

Identidade visual do Ilê Aiyê (Perfil Azeviche), por Jota Cunha

O Ilê Aiyê é o mais antigo bloco afro do Carnaval de Salvador, fundado em 1974 no bairro do Curuzu, na Liberdade, em diálogo estreito com o Terreiro Ilê Axé Jitolu, liderado por Mãe Hilda Jitolu (1917–2009). Desde sua criação, tornou-se um marco de afirmação da identidade negra no Brasil, unindo música, estética e resistência política.

Os terreiros de Candomblé sempre tiveram papel central na história do Ilê Aiyê. Além de espaços de culto aos Orixás, funcionam como centros de sociabilidade, apoio comunitário e afirmação identitária, oferecendo às comunidades assistência social, atividades educativas e até iniciativas ligadas à saúde física e mental.

O bloco consolidou também um reconhecido papel educador. Em 1995, quando completou 20 anos, inaugurou formalmente o Projeto de Extensão Pedagógica (PEP), ampliando sua atuação para a formação, o autoconhecimento e a educação voltada para a valorização da cultura negra. Nesse contexto, lançou a série Caderno de Educação. O volume inaugural, intitulado Organizações de Resistência Negra, apresentou um panorama das principais organizações negras brasileiras desde o século XVII até a fundação do próprio Ilê, em 1974, articulando história, poesia, música, ilustrações, exercícios escolares e glossário.

Entre suas frentes, destacam-se a Escola Mãe Hilda (1988) e o projeto Band'Erê (1992), voltados para crianças e jovens da comunidade. Essas experiências, assim como outras escolas vinculadas a terreiros de Candomblé, caracterizam-se por um ensino laico (não-confessional), embora inspirado em valores afrocentrados e de matriz africana. Tal prática contrasta com o modelo de escolas confessionais de outras tradições religiosas, amplamente presentes no Brasil, mas ainda enfrenta barreiras decorrentes do preconceito e do racismo religioso, que marginalizam iniciativas educativas ligadas aos terreiros.

Ao articular carnaval, educação e religiosidade afro-brasileira, o Ilê Aiyê consolidou-se como um dos principais símbolos da luta contra a discriminação racial e da valorização da negritude, influenciando gerações e inspirando movimentos negros em todo o Brasil.

TEXTO REESCRITO E ADAPTADO PELO EDITOR-REVISOR

FONTES:
OCUPAÇÃO Ilê Aiyê, A origem. Itaú Cultural, 2018.
ILÊ AIYÊ. Caderno de Educação: Organizações de Resistência Negra. Salvador: PEP/Ilê Aiyê, [202-].
ILÊ AIYÊ. Projeto de Extensão Pedagógica: Caderno de Educação do Ilê Aiyê. Vol. I – Organizações de Resistência Negra. Salvador, 1995.

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