1946
CONSTITUIR O SILENCIAMENTO
a manifestação do pensamento é livre, porém depende
CAPA DA CONSTITUIÇÃO DE 1946
O enfraquecimento político de Getúlio Vargas, à frente do regime ditatorial conhecido como Estado Novo (1937-1946) abriu espaço para a ascensão de novos grupos políticos após as eleições de 1945, culminando na convocação de uma nova Assembleia Constituinte. Esse processo resultou na elaboração da quinta Constituição brasileira, promulgada em 1946, a qual, inicialmente, não fazia menção ao termo "raça".
Somente em 1965, já sob a vigência da ditadura militar instaurada no ano anterior, foi aprovada uma emenda que modificou o § 5º do art. 141 da Constituição de 1946. Essa alteração incluiu, entre as proibições constitucionais, a propaganda baseada na incitação à guerra, à subversão da ordem e em preconceito de raça ou de classe.
Resistências Radicais
01
02
02
O TEATRO DA CIDADANIA
CARTAZ PEÇA TEN - FOTO DO ACERVO DE AUGUSTO BOAL
Compreendendo aquele momento como uma oportunidade de influir na nova Carta Magna do país, membros do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado no Rio de Janeiro dois anos antes, atuaram intensamente para inserir, entre os representantes constituintes, alguém comprometido com as causas da população negra.
Surgido publicamente em 1946, o TEN, segundo seu fundador Abdias Nascimento, "se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana europeia, imbuída de conceitos pseudo-científicos sobre a inferioridade da raça negra" (Nascimento, 2004). Alcançando grande sucesso entre o público, com apresentações teatrais protagonizadas por atrizes e atores negros com escala até então inédita no Brasil, o TEN buscava ampliar as conquistas da população negra brasileira não apenas na área cultural, mas também nos âmbitos educacional e político.
Com esse objetivo, o TEN organizou a Convenção Nacional do Negro primeiramente em São Paulo (1945) e depois no Rio de Janeiro (1946). Nessa última, elaborou a "Declaração Final", encaminhada à Constituinte por intermédio do senador Hamilton Nogueira (UDN-RJ), na qual explicitava as "aspirações coletivas do grupo negro". Entre as reivindicações, estava a criação de uma lei que considerasse o racismo um crime de lesa-pátria, além de outras medidas de ordem prática. Entretanto, tais propostas não foram contempladas, ficando, como lamentou Abdias do Nascimento, "aquém do previsto no projeto de emenda constitucional patrocinada pela convenção" (Nascimento, 2004).
Mais tarde, porém, a articulação do TEN contribuiu para a promulgação da Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951, a chamada "Lei Afonso Arinos", que pela primeira vez na história do país incluiu práticas preconceituosas relativas à raça e à cor no rol de contravenções penais.
TEXTO REESCRITO E ADAPTADO PELO EDITOR-REVISOR
FONTE:
NASCIMENTO, Abdias do. Teatro Experimental do Negro: trajetória e reflexões. Estudos avançados, n. 18, v. 50, 2004, p. 209-224.
Tags
Conteúdos relacionados
Episódio – Dramas para negros e prólogo para brancos: 80 anos do Teatro Experimental do Negro na Rádio UFMG Educativa. Belo Horizonte: Reportagens Rádio UFMG Educativa, Podcast. 10 dez. 2024. 1h45min.
TV 247. Pensar africanamente - Teatro Experimental do Negro: 80 anos da fundação. YouTube, 20 nov. 2021. 1h44min05seg.
Anterior
Voltar para o índice
Próximo
Voltar para o índice