1979
QUEM ERA CONSIDERADO "MENOR" PELO ESTADO BRASILEIRO?
Código de Menores de 1979
Manifestação pelos direitos da infância e da juventude nos anos 1980. Crédito: Oficina de Imagens/Reprodução
O Código de Menores de 1979 (Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979) foi a segunda grande legislação do Brasil voltada exclusivamente para a infância e adolescência. Substituindo o Código Mello Mattos de 1927, o código de 1979 instituiu a chamada Doutrina da Situação Irregular, que visava controlar e tutelar crianças e adolescentes considerados em "situação irregular" — ou seja, aqueles em situação de pobreza, abandono, delinquência ou inadaptação social.
A legislação não se destinava à proteção universal de crianças e adolescentes, mas sim ao controle de grupos específicos da população infanto-juvenil, especialmente os mais pobres e marginalizados. A doutrina da situação irregular consolidou práticas de institucionalização forçada, legitimando a internação de jovens em instituições correcionais, como a FEBEM (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), onde eram submetidos a condições precárias e violentas.
Essa legislação teve um impacto direto na racialização da categoria jurídica "menor", diferenciando as crianças e adolescentes pobres — em sua maioria negras — das demais. Enquanto filhos de famílias brancas e de classe média eram chamados de "crianças" ou "adolescentes", os jovens negros e pobres eram tratados como "menores", termo que carregava um sentido pejorativo e estigmatizante, associado à criminalidade e à marginalidade.
Resistências Radicais
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MOBILIZAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA CONTRA O CÓDIGO DE 1979
Manifestação do Movimento Nacional de Meninas e Meninos de Rua, em Brasília. Foto: Arquivo/ABr
A população negra e os movimentos sociais, especialmente aqueles ligados aos direitos da infância e adolescência, atuaram fortemente contra o Código de Menores de 1979. Organizações como a Pastoral do Menor, fundada em 1978, e o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), criado em 1985, denunciaram as violações de direitos e as práticas abusivas cometidas contra jovens institucionalizados.
A resistência ao Código de Menores esteve diretamente relacionada à luta antirracista, pois eram as crianças negras e pobres as principais vítimas da institucionalização e da criminalização. O movimento negro e as organizações de defesa da infância denunciaram a naturalização da violência estatal contra esses jovens, que eram tratados como ameaças à ordem social, e não como sujeitos de direitos.
A mobilização culminou na aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, que revogou o Código de Menores e instituiu a Doutrina da Proteção Integral, reconhecendo crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, independentemente de sua condição social ou raça. O ECA foi uma conquista histórica dos movimentos sociais e da população negra, que há décadas lutava contra a marginalização e criminalização da juventude pobre e negra.
Apesar do avanço legal representado pelo ECA, a herança do Código de Menores ainda persiste no imaginário social brasileiro e nas práticas de controle e repressão contra a juventude negra, que continua sendo a principal vítima da violência policial e da institucionalização no sistema socioeducativo.
FONTE:
VIEIRA, Ana Luísa. A construção da categoria menor e os limites da cidadania de crianças e jovens no Brasil. Criança Livre de Trabalho Infantil, 2018.
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