1893
A VIGILÂNCIA DO TRABALHO DOS AGUADEIROS EM FEIRA DE SANTANA, BAHIA
MECANISMOS DE MONITORAMENTO NO PÓS-ABOLIÇÃO
AGUADORES NA CIDADE – FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATOS
Até 1957, Feira de Santana, na Bahia, não possuía água encanada. A população dependia da água retirada de fontes e outros mananciais. Esse serviço era feito pelos aguadeiros, que transportavam e vendiam água para as casas, geralmente em barris levados por animais de carga. Muitos trabalhavam para pessoas que eram donas de fontes de água, animais e outros recursos necessários para esse comércio. A atividade era exercida, em sua maioria, por homens negros, muitos deles libertos ou descendentes de pessoas escravizadas.
De acordo com o historiador Pedro Alberto Cruz de Souza Gomes (2024), o Código de Posturas de Feira de Santana, de 1893, não exigiu que os aguadeiros fizessem matrícula, como aconteceu com os ganhadores e outros trabalhadores. Os aguadeiros aparecem no Código apenas “quando a intenção era reprimir as correrias e a má condução de animais” (Gomes, 2024, p. 5). A norma determinava que os animais usados para transportar água fossem conduzidos pelo cabresto. Quem desrespeitasse essa regra poderia pagar multa de 3 mil réis ou cumprir um dia de prisão.
Com o crescimento da cidade, as regras sobre essa atividade ficaram mais duras. Editais de 1901 e 1910 passaram a exigir a identificação das carroças e dos barris. Em 1918, a lei orçamentária para o ano de 1919 determinou que a chapa de licença (placa de identificação) dos animais usados no serviço fosse colocada em local visível. Na década de 1930, os aguadeiros também passaram a precisar de licença para trabalhar. Em 1944, foram obrigados a se apresentar à polícia para fazer o fichamento e entregar fotografias.
A trajetória dos aguadeiros mostra que essas normas iam além da organização do abastecimento de água. Como destaca Gomes (2024), as exigências de licença, identificação e fiscalização também serviam para vigiar e controlar esses trabalhadores, reforçando a vigilância sobre a população negra no período pós-abolição, em vez de reconhecer a importância desse serviço para a cidade.
Resistências Radicais
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“AGUADEIROS IMPIEDOSOS” (OU DEFENSORES DO SEU PRÓPRIO RITMO DE TRABALHO)
AGUADEIRO DE FEIRA DE SANTANA – ANTONIO MAGALHÃES/ARQUIVO
Em 1926, o jornal Folha do Norte*,* de Feira de Santana, Bahia, publicou uma matéria com o título “Aguadeiros impiedosos”. O texto criticava os trabalhadores porque a água era entregue apenas em determinados dias e horários. Segundo o jornal, isso prejudicava a população, principalmente nos dias de muito calor, quando a necessidade de água era maior.
Para o historiador Pedro Alberto Cruz de Souza Gomes (2024) essa situação pode ser entendida de outra forma. Em vez de mostrar falta de compromisso, essa situação revela que os aguadeiros buscavam organizar seu trabalho no seu próprio ritmo. Como o serviço era pesado e dependia das condições do tempo, eles costumavam trabalhar principalmente pela manhã e no fim da tarde, quando a temperatura era mais amena.
Segundo Gomes (2024, p. 21-22), “o comportamento dos trabalhadores enunciava a rejeição do projeto de cidade imposto pelas elites. No caso dos aguadeiros, houve a busca pela gestão do seu próprio tempo e forma de realizar o serviço”. Assim, os horários escolhidos pelos aguadeiros também podem ser vistos como uma forma de resistência às tentativas de controlar seu trabalho e sua rotina.
Caso Histórico
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QUANDO A POSSIBILIDADE DE UM AGUADEIRO SER ELEITOR ERA MOTIVO DE DEBOCHE
Entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, os aguadeiros não enfrentavam apenas regras que controlavam seu trabalho. Em sua maioria homens negros e pobres, eles também eram vistos pela sociedade como pessoas que deveriam ocupar um lugar inferior. Esse preconceito limitava sua participação na vida pública e reforçava sua exclusão.
Um exemplo dessa visão aparece no artigo Aguadeiros em Feira de Santana/BA: trabalho, controle e relações raciais (1893-1936), do historiador Pedro Alberto Cruz de Souza Gomes (2024). Ao analisar uma edição do jornal Folha do Norte, da década de 1920, o autor encontrou um texto que debochava sobre o desaparecimento de um processo no fórum de Feira de Santana. Para ironizar o caso, o jornal comparou o fato a situações consideradas absurdas, afirmando: “já vi um burro doutor/ um cachorro sem coleira / um aguadeiro eleitor / um sábio dizer asneiras” (Forenses, 1921, apud Gomes 2024, p. 19).
Esse caso revela que, para parte da sociedade da época, a ideia de um aguadeiro votar era visto como algo fora do comum. Como afirma Gomes (2024, p. 19), “a condição de subcidadania dos aguadeiros foi afirmada pela ideia de que o exercício do voto por esses trabalhadores seria algo fora do horizonte possível e desejável”. O autor também explica que essa posição inferior era reforçada pelos jornais, que frequentemente associavam os lugares onde os aguadeiros moravam e se divertiam à criminalidade e à desordem. Dessa forma, ajudavam a fortalecer preconceitos raciais e sociais contra esses trabalhadores.
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SUZART, Gabriella. Vestígios dos aguadeiros na Salvador oitocentista. Salvador: Ed. da Autora, 2024. PDF.
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