1965
O CONTROLE DO COMÉRCIO E DA RELIGIOSIDADE EM SANTO ANTÔNIO DE JESUS (BA)
LEI Nº 66, DE 4 DE DEZEMBRO DE 1965
SANTO ANTÔNIO DE JESUS, BAHIA, SÉCULO 20
A Lei nº 66, de 4 de dezembro de 1965, criou o Código de Posturas do município de Santo Antônio de Jesus (SAJ), localizado no Recôncavo Baiano. O código trazia regras sobre o uso dos espaços públicos e sobre os hábitos e o comportamento de moradores e visitantes da cidade.
Um exemplo desse controle está no artigo 160, que dizia que “candomblés, sambas e batuques” só poderiam acontecer com autorização da prefeitura. Bailes e reuniões familiares, por outro lado, não precisavam dessa licença. Para o pesquisador Hamilton Rodrigues dos Santos (2024), essa diferença mostra o preconceito da lei contra as manifestações culturais e religiosas de matriz africana.
Essa forma de controle também aparece nos artigos 245º a 256º, que traziam regras para o funcionamento dos mercados públicos e das feiras livres. A lei definia quais produtos poderiam ser vendidos, como as barracas deveriam ser organizadas, os horários de funcionamento e as regras para o trabalho dos feirantes. Quem não cumprisse essas determinações poderia pagar multas entre $10.000 e $50.000.
Santos (2024) também observou que as multas mais altas do Código eram aplicadas aos praticantes de religiões de matrizes africanas e aos feirantes, sendo a grande maioria deles afrodescendentes e trabalhadores da zona rural. Isso mostra que, entre as décadas de 1950 e 1970, a lei atingia principalmente a população negra e as pessoas mais pobres, revelando como os preconceitos raciais e sociais estavam presentes nas normas e punições do poder público no interior da Bahia.
FONTES:
SANTO ANTONIO DE JESUS. Lei nº 66, de 4 de dezembro de 1965. APMSAJ.
SANTOS, Hamilton Rodrigues dos. Sementes do tempo, colheitas da vida: cultura e trabalho de feirantes no Recôncavo Baiano: Santo Antônio de Jesus (1950-1970). 1. ed. Salvador, BA: Universalis Edições; EDUNEB, 2024.
Resistências Radicais
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TRADIÇÃO, CULTURA E RESISTÊNCIA NA FEIRA LIVRE DE SAJ
FEIRA LIVRE, MUNICÍPIO SANTO ANTÔNIO DE JESUS, INÍCIO DO SÉCULO XX – ARQUIVO DA FAMÍLIA TOURINHO
A feira livre de Santo Antônio de Jesus, entre as décadas de 1950 e 1970, foi um importante espaço de comércio e convivência no Recôncavo Baiano. Nela circulavam alimentos, ervas, animais, cerâmicas e outros produtos usados no dia a dia, nas práticas de cura e nas religiões de matrizes africanas.
Segundo o pesquisador Hamilton Rodrigues dos Santos (2024), pais e mães de santo frequentavam a feira para comprar os elementos necessários aos rituais religiosos. Muitos eram reconhecidos por suas vestimentas, que expressavam sua identidade e sua fé. Em um período marcado pelo preconceito contra as religiões de matrizes africanas, estar na feira com essas roupas também era uma forma de afirmar sua cultura e resistir à discriminação.
A feira também preservava conhecimentos transmitidos pela tradição oral. Raizeiros, curandeiros e vendedores de ervas compartilhavam saberes sobre plantas medicinais, chás, banhos e tratamentos que faziam parte da cultura afro-brasileira e eram procurados por pessoas de diferentes origens.
Além de garantir o sustento de muitas famílias, a feira ajudou a preservar práticas, saberes e costumes da população negra. Dessa forma, tornou-se um importante lugar de memória, identidade e resistência cultural baiana.
FONTE:
SANTOS, Hamilton Rodrigues dos. Sementes do tempo, colheitas da vida: cultura e trabalho de feirantes no Recôncavo Baiano: Santo Antônio de Jesus (1950-1970). 1. ed. Salvador, BA: Universalis Edições; EDUNEB, 2024.
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BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim. São Paulo: Brasiliense, 1986.
SANTOS, Denilson Lessa dos. Nas encruzilhadas da cura: crenças, saberes e diferentes práticas curativas – Santo Antônio de Jesus – Recôncavo Sul – Bahia (1940- 1980). 2004. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.
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